qua., 8 de abril de 202010 minutos lidos

Por que Deus permite o vírus Corona?

Deus pode fazer tudo! Ele é todo-poderoso! Então, por que ele não “dá uma tesourada” – e este pequeno vírus devastador, que matou milhares de pessoas, deixou nações inteiras em pânico e paralisia, e está previsivelmente arruinando a economia mundial, desaparece no armário de venenos da história médica?

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Qual é o objetivo/ A Pergunta “Por quê”

Definição

Quase todo mundo se pergunta qual é o sentido da vida. Eles se fazem muitas perguntas do tipo “por quê”: “por que estou nesta Terra? Por que isso ou aquilo acontece? Por que minha vida é assim?” Você pode deixar essas perguntas sobre o significado das coisas sem resposta e continuar vivendo sem prestar atenção em seus horizontes espirituais. Você pode se esconder em um casulo para dar sentido à sua vida em particular. Você pode negar a existência de um significado e alegar que a vida na Terra é simplesmente absurda. Mas você também poderia passar a crer, o que significa: viver nossas vidas confiando em Deus, mesmo quando não entendemos tudo que acontece conosco.

O que a Bíblia diz?

A primeira narrativa da criação na Bíblia termina com esta frase: “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom” (Gn 1, 31a). Apesar do pecado e da rebelião contra o Criador de todas as coisas, Deus nunca retira este “muito bom” do princípio (e, portanto, do fato de que há sentido na vida). O primeiro nome pelo qual Deus é descrito no Antigo Testamento é El Shaddai (Gn 17, 1: “Eu sou o Deus Todo-poderoso”). “Shad” também denota o seio da mãe e, portanto, significa o cuidado maternal de Deus. Deus é bom, mas ao mesmo tempo não pode ser avaliado cientificamente, então Ele também permanece um mistério para nós: “Pois meus pensamentos não são os vossos, e vosso modo de agir não é o meu, diz o Senhor; mas tanto quanto o céu domina a terra, tanto é superior à vossa a minha conduta e meus pensamentos ultrapassam os vossos” (Is 55, 8-9). As pessoas que “jazem nas trevas e na sombra da morte” (Lc 1, 79) ficam se perguntando: "Por que olharíeis os ímpios e vos calaríeis, enquanto o malvado devora o justo?" (Hab 1, 13b). Não é apenas Jó que se apega firmemente à convicção de que Deus tem bons planos para nós, apesar de todos os desafios e golpes do destino. Manter-se esperando em Deus é expresso em um de Seus outros nomes: Emmanuel (= Deus conosco). Este nome profeticamente prefigura a vinda do Messias: “Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamará ‘Deus Conosco’" (Is 7, 14). Em Jesus, Deus nunca nos abandona! Por meio de Jesus, sabemos de uma vez por todas que Deus tem bons planos para nós: “Aliás, sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo os seus desígnios” (Rm 8, 28). Ao confiar no amor fidedigno de Deus, os cristãos podem viver uma vida cheia de significado, mesmo em meio a uma segurança frágil.

Uma pequena catequese do YOUCAT:

Por que Deus permite o vírus Corona?

Deus pode fazer tudo! Ele é todo-poderoso! Então, por que ele não “dá uma tesourada” – e este pequeno vírus devastador, que matou milhares de pessoas, deixou nações inteiras em pânico e paralisia, e está previsivelmente arruinando a economia mundial, desaparece no armário de venenos da história médica?

Sim, “para Deus, nada é impossível”. Ele poderia, se quisesse. Afinal de contas, Deus é o criador do mundo e aquele que o conserva em Seu ser; portanto, é “o Senhor da História. Ele conduz todas as coisas e pode tudo” – conforme a Questão 41 do YOUCAT. Mas a frase seguinte já diz: “É um mistério como Ele exerce livremente Sua onipotência”.

De novo um segredo! – algumas pessoas podem pensar na quietude de seu quarto: “Oh, isso é uma desculpa da parte dos teólogos! Deus não existe mesmo – você pode constatar isso! E se ele realmente existe, ou é fraco – não pode fazer nada –, ou não está interessado. Então, não precisamente dele de maneira nenhuma!”.

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Deus não é nem inexistente, nem fraco, nem mau…

Deus é diferente. Ele está além de toda imaginação. Ninguém pode ver suas cartas. “Pois os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são os meus” (Is 55,8), diz o profeta Isaías. Certa vez, um velho e piedoso sacerdote desafiou toda a minha fé quando me disse: “Escute! Deus não comete erros! Você acredita nisso?” Quando mal deixei escapar um “Mas…”, ele olhou-me duramente através de seus óculos sem aro e repetiu a frase: “Deus não comete erros! Você acredita nisso?” Sim. Agora acredito, particularmente porque são Tomás de Aquino me fez pensar: “Deus só permite o mal para fazer surgir dele algo melhor” (YOUCAT 51).  

Acerca da diferença entre destino, acaso, castigo, admissão e sinal

Se o Corona fosse apenas destino, então o desastre seria uma maldição sem sentido sobre nós. A última coisa humana a dizer a respeito seria: “Azar! Destino é destino”. No próximo nível de interpretação, ouvimos: “É um acaso – uma combinação de circunstâncias desfavoráveis”. O que você diz, então? “Da próxima vez, seremos mais espertos; então, driblaremos o acaso”. Não conheço nenhuma pessoa doente em quem tal resposta jamais tenha infundido consolo e confiança. O Corona é, talvez, castigo de Deus? É castigo pela destruição da Terra? Dificilmente! No Antigo Testamento, Deus pune os pecados de Seu povo. Contudo, disso não se deve concluir que em toda parte onde a desgraça atinge as pessoas, haja um Deus punidor por trás dela. Em todo caso, Jesus não ligou o desastre de Siloé, no qual 18 pessoas morreram, ao pecado das vítimas: “Pensais que eram mais culpados do que qualquer outro morador de Jerusalém?” (Lc 13,4). Todos precisam de arrependimento. Sem contar que, na maioria das vezes, nós mesmos é que produzimos as besteiras que nos fazem sofrer e para as quais buscamos alegremente um bode expiatório. É mais útil falar das permissões de Deus. De fato, este é um conhecimento firme da fé, de que não há nada além de Deus – ou seja, nada que ele também não permita, quer entendamos, quer não. A Questão 49 do YOUCAT diz: “Deus está presente em todas as vicissitudes da nossa vida, mesmo nas ocorrências dolorosas e nos supostos acasos, aparentemente sem sentido”.

Brian e Katie Rutter assistem a uma missa que seu pastor, Pe. Tom Kovatch transmite ao vivo da Igreja Católica de São Carlos Borromeu em Bloomington, Indiana, no dia 28 de março de 2020. © CNS Photo/Katie Rutter

Como é que é? Um grande momento?

Há uma palavra bem mais apropriada para interpretar a crise do Corona oriunda de Deus. Esta palavra é “sinal”. A piedade é a arte de ler a escritura de Deus, de decifrar Seus sinais em tudo o que acontece. O Corona – por mais terríveis que sejam as coisas – não poderia ser também uma pausa decretada do alto? Um ato de resgate emergencial? Uma drástico sinal de parada, evitando que precipitemos o planeta, com todos os seus habitantes, no abismo desconhecido?

Recentemente, alguém debruçou-se na janela em uma carta ao editor: “Poderia ser um momento importante para os políticos inteligentes que agora estão clamando por abordagens radicalmente novas para o futuro…? Continuar a construir automóveis que giram espalhando sujeira? Navios cruzeiros? Mais alguns milhares de aviões turísticos? Por que não passar de modo geral à agricultura orgânica agora?” A opinião política pode estar dividida em uma ou outra. Uma coisa, no entanto, é inquestionável: “O mundo não pode continuar como está” – afirmou o Papa Francisco já em 2015, no Prefácio do DOCAT. “Extensões inteiras de terras são despovoadas, porque os pobres fogem para os bairros de lata das grandes metrópoles, com a esperança de aí encontrarem alguma coisa para poder sobreviver. A lógica produtiva de uma economia globalizada arruinou as modestas estruturas econômicas e agrícolas das suas regiões. Cerca de 1% da população mundial possui em média 40% da riqueza mundial e 10% da população mundial possui 85%. Por outro lado, “pertence” à metade da população mundial aproximadamente 1% deste mundo. 1,4 milhões de homens vivem com menos de 1 euro por dia”. Se não tivéssemos continuado assim para sempre, não nos teria Deus interrompido? Agora se diz: as perturbações têm prioridade. Talvez cheguemos a comportar-nos de modo sensato antes que seja tarde demais.

O mestre do impossível

Muitas pessoas agora dirão: eu também vejo isso, mas não sei o que posso fazer para deter o mecanismo de destruição. Em tais momentos, gosto de olhar para os santos, especialmente Charles de Foucauld, um dos maiores cristãos dos tempos modernos. Ele tinha um pensamento notavelmente ousado – sem dúvida, um tanto excessivo – a respeito da oração: “Não tenhamos medo de pedir a Deus até mesmo as coisas mais difíceis (tal como a conversão de grandes pecadores ou de nações inteiras). Vamos pedir-lhe ainda mais, por mais difíceis que sejam, confiantes em que Deus nos ama apaixonadamente e que um amante apaixonado dá ainda mais, maior é o presente”. Ele considerava Jesus até mesmo maior do que a oração. Foucauld dizia que “Jesus é o mestre do impossível”. ∎